segunda-feira, 23 de junho de 2014

A POLIARTRITE REUMATÓIDE


A POLIARTRITE REUMATÓIDE, OU POLIARTRITE CRÓNICA EVOLUTIVA


Os dois ossos de uma articulação unem-se da seguinte maneira: a extremidade convexa de um encaixa na extremidade côncava do outro. Estão envoltos por uma cobertura cartilagínea que permite o deslizamento dos dois ossos, um sobre o outro. Esta cartilagem é uma substância lisa e polida, tanto mais espessa quanto maiores forem as pressões a que a articulação estiver submetida. A mobilidade das duas peças articulares é ainda garantida pela presença, entre as duas car­tilagens, de uma pequena quantidade de um líquido fluido e viscoso que se designa por líquido sinovial. Este líquido está contido numa cavidade fechada, limitada pelas duas superfícies cartilaginosas e por uma membrana que se insere no bordo destas duas superfícies: a membrana sinovial.
Os extremos dos dois ossos mantêm-se juntos mediante um tubo fibroso, a cápsula, uma espécie de bainha ou invólucro de forma cilíndrica, unida aos ossos e próxima das duas superfícies articulares. Resistente e elástica, esta mantém-nos a ambos juntos com os liga­mentos e os tendões. Estes últimos, constituindo a parte terminal dos músculos, servem para transmitir à articulação os movimentos que lhe são ordenados.
Na poliartrite crónica evolutiva, o processo degenerativo da arti­culação inicia-se por uma inflamação da membrana sinovial. Quando esta repara os danos que se originaram no momento em que se pro­duziu a inflamação, formam-se excrescências de carne, como acontece na cicatrização de qualquer ferida. Estas excrescências insinuam-se entre as cartilagens articulares que, paulatinamente, se irão deteriorando e desgastando.
Numa primeira fase, as superficies cartilaginosas tornam-se rugo­sas e perfuram-se em alguns lugares, e, em vez de deslizarem suave­mente uma sobre a outra, irritam-se mutuamente. Cada movimento e, o que é pior, o simples contacto, provocam dores que se devem ao estado de hipersensibilidade praticamente permanente dos tecidos.
Com o tempo, a destruição e desaparecimento do tecido cartilagíneo dará lugar à destruição do tecido ósseo. Em vez de estarem separados pelo líquido sinovial e pelas superfícies cartilagíneas, os dois ossos encontram-se em contacto um com o outro. Além das dores inevitá­veis que daí derivam a cada movimento e com a crescente deteriora­ção do tecido ósseo, pode também ocorrer que as extremidades dos dois ossos se tornem fixas, soldando-se uma à outra. Então, a articula­ção estará condenada, tornando-se inutilizável, e os músculos, ao não serem usados, atrofiar-se-ão.
A destruição da articulação não resulta unicamente do traumatismo que constitui a fricção das extremidades da membrana sinovial. Como acontece em quase todas as formas de reumatismo, existe um outro factor, a acção de um terreno ácido, que é necessário tomarmos em consideração.
A acidez do organismo deve-se a um consumo abusivo de alimen­tos ácidos em si mesmos (vinagre, frutas ácidas, etc.), mas, sobretudo, de alimentos que, no momento da sua digestão e utilização por parte do organismo, produzem numerosos resíduos ácidos, como por exem­plo carnes, açúcar, farinhas refinadas, excesso de cereais, bebidas industriais, etc. Esta acidez será também acentuada pela suboxigenação e pelas carências. O modo de vida e de alimentação actuais favore­cem, pois, a multiplicação dos transtornos provocados pela acidez.
“Sem qualquer dúvida que o ácido é o mais prejudicial de todos os estados dos humores”, dizia Hipócrates. A sua acção agressiva e corrosiva sobre os tecidos obriga o corpo a reagir, neutralizando-a com bases minerais (cálcio, sódio, magnésio, etc.). Quanto mais nu­merosos forem os ácidos, mais minerais deverá ceder o corpo. Encontra-os nos tecidos do organismo, especialmente naqueles onde existem em maior abundância: os ossos.
A acidez dos tecidos acarreta, infalivelmente, uma desmineralização do organismo em geral e dos ossos em particular. As articulações que se encontram debilitadas, pela agressão dos ácidos e pelas perdas de minerais, degeneram pelo simples facto de nadarem num terreno ácido e, em consequência, perderem toda a resistência frente à deterioração, aos traumatismos e às diversas agressões.
Este factor, o terreno ácido, explica por que, na fase final da poliartrite crónica evolutiva, todas as articulações se encontram afecta­das. Com efeito, nadam neste terreno. Isto explica igualmente a razão pela qual o fenómeno de desmineralização do osso se observa, inclu­sivamente, fora das zonas de fricção da articulação.
O processo de degradação não poupa nenhum elemento articular. Os tendões também são atingidos. Conforme se trate de extensores ou de flexores, quando se bloqueiam ou se gastam mantêm a articulação numa posição de flexão ou de hiperextensão, sem possibilidade de modificação.
Devido à inflamação, toda a região articular assume um inchaço que é mantido pelo estado crónico da doença. A par das lesões cartila­ginosas e ósseas, surge uma deformação permanente das articulações.
Com a evolução da doença, a mobilidade das articulações será cada vez mais dolorosa e também cada vez mais difícil. As deslocações e, inclusivamente, os movimentos da vida diária (lavar-se, comer, etc.)tornam-se, em alguns casos, impossíveis.
A poliartrite crónica evolutiva é uma doença inflamatória das ar­ticulações (artrite) que incide sobre muitas articulações (poli). É cró­nica, no sentido em que não se manifesta em crises agudas, curtas ou passageiras, mas sim em crises que se prolongam. O adjectivo “evolutivo” significa que o mal não permanece fixo ou localizado, mas que se propaga e se agrava com o tempo.
Efectivamente, com o correr dos anos, os doentes vêm as suas articulações serem atingidas, uma após outra. Os danos iniciam-se, com frequência, pelos dedos e pelos pulsos. Mas os pés, os tornozelos, os joelhos, os cotovelos e os ombros não estão livres de, na continua­ção, serem atingidos, assim como a coluna vertebral e, inclusivamente, a articulação mandibular.
Da agilidade à rigidez, do prazer da deslocação ao suplício da movimentação, transcorre uma longa evolução, que não deveria ter que produzir-se. No entanto, para nos desligarmos de uma doença, é necessário que conheçamos as suas causas. Quais são, então, as causas que produzem a degeneração das articulações e por que motivo se inflamam?
A inflamação é uma resposta do organismo a uma reacção irritante ou às perturbações criadas por diversos factores, quer sejam micróbios patogénicos, agentes físicos (golpes ou feridas), ou agentes químicos (toxinas, venenos, resíduos, etc.).
Ao contrário de outras formas de artrite, a poliartrite crónica evolutiva não é causada por uma infecção microbiana, pelo menos de forma clara ou primária. A hipótese dos traumatismos também pode ser posta de lado, pois é pouco provável que todas as articulações de um doente tenham sofrido traumatismos.
Assim, resta-nos analisar o terceiro factor: os agentes químicos, quer dizer, as substâncias capazes de irritar os tecidos orgânicos que, como vimos já, são numerosas e têm duas origens: a interna, que consta de resíduos e restos procedentes do funcionamento do próprio organismo, e a que se compõe de substâncias nocivas proporcionadas pelos alimentos, bebidas, medicamentos e excitantes.
A presença destas substâncias no meio orgânico é considerada pela medicina natural a causa profunda de todas as doenças. A poliartrite crónica evolutiva não é uma excepção. As articulações nadam em líquidos orgânicos saturados de resíduos ácidos e irritantes que as dilatam, agridem a mucosa sinovial e as cartilagens e desmineralizam os ossos. A inflamação resulta da agressão, mas também da reacção de defesa do organismo que tenta proteger as suas articulações da acção destruidora dos resíduos.
Enquanto durar a agressão, enquanto o meio orgânico em que a articulação está imersa permanecer saturado de resíduos, a inflamação persistirá. Em contrapartida, quando o corpo dispõe de meios sufi­cientes para se purificar, as articulações deixam de sofrer agressões e, neste caso, a inflamação desaparece.
Instala-se, pois, uma fase de remissão. Todavia, basta que as so­brecargas aumentem ou que ocorram novas carências para que o processo inflamatório volte a desencadear-se. As agressões poderão suceder-se, afectando agora uma articulação, depois outra, à medida que a intoxicação e a agressão das toxinas chegam até elas.
A poliartrite crónica evolutiva apresenta-se como uma expressão mórbida suplementar de um terreno degradado. Efectivamente, longe de ser uma doença localizada apenas nas articulações, faz-se acom­panhar por muitos outros transtornos que revelam o grau de impureza humoral.
Os resíduos acumulam-se nos tecidos cutâneos sob a forma de nódulos. Os vasos sanguíneos, obstruídos pelos sedimentos, inflamam-se ou entopem-se. Os gânglios linfáticos, congestionados, incham. As glândulas lacrimais entopem-se. Os rins sofrem lesões graves devido à quantidades de resíduos que devem eliminar. Em certos casos, o corpo cria uma porta de saída artificial para eliminar os resíduos, como é o caso da úlcera varicosa ou o sangramento das hemorróidas, pois os canais excretores encontram-se completamente cheios.
Por outro lado, os problemas digestivos crónicos são comuns e as carências são numerosas e importantes.
Apesar da aparência inequívoca da poliartrite crónica evolutiva, produzem-se remissões prolongadas, e a progressão da doença é por vezes interrompida graças aos tratamentos que não se limitam aos sintomas, mas que atacam também a raiz dos transtornos.
Da agilidade à rigidez, do prazer da deslocação ao suplício da movimentação, transcorre uma longa evolu­ção, não justificável.

De: Christopher Vasey

Do livro Compreender as doenças Graves Editorial Estampa Lda.
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